5# GERAL 16.4.14

     5#1 GENTE
     5#2 VIDA DIGITAL  NO CORAO DA WEB
     5#3 MEMRIA  OUSADO, FORTE E SEDUTOR
     5#4 SADE  UM DOCE AMIGO
     5#5 MEDICINA  O ENIGMA DO CAPITO BELLINI
     5#6 IDEIAS  SERVIDO VOLUNTRIA
     5#7 EDUCAO  TEMPO PARA INVESTIGAR

5#1 GENTE 
JULIANA LINHARES. Com Marlia Leoni, Tasa Szabatura e Thas Botelho

MONTANHAS DE NEGCIOS
Ela  garota-propaganda de seis grandes marcas, incluindo uma de lingerie, tem culos, joia, esmalte, bolsa e relgio licenciados em seu nome, alm de uma clnica de esttica e um recm-inaugurado restaurante vegetariano aberto com o colega Reynaldo Gianecchini, da novela Em Famlia. Como no d para dar conta de tudo isso e ainda proteger o marido e os trs filhos dos perigos do mundo, GIOVANNA ANTONELLI adota ttica domiciliar prtica e certeira: tasca gua benta em todo mundo e na casa toda. "A f move montanhas", diz ela. E se vier em spray, ento, levar s uns minutinhos.

QUAC! ESSA FOI QUASE
Empenhada em sua cada vez mais assumida campanha para se tornar a primeira mulher a ocupar a Casa Branca, HILLARY CLINTON, 66, escapou por pouco de sentir na pele a reao dos contrrios  ideia. Minutos depois de iniciar uma palestra para especialistas em reciclagem de resduos, em Las Vegas, viu um sapato laranja voar em direo  sua cabea, atirado por uma mulher da plateia sem nenhuma aparente conexo com Benghazi ou outro reduto muulmano de pssima lembrana para a ex-secretria de Estado. Se faltaram graa e leveza para escapar do ataque, sobrou rapidez de raciocnio para fazer graa dele. "Meu Deus, no sabia que a gesto de resduos slidos era to controversa", afirmou, j reaprumada e livre da pose de pato.

KIM, KATE E AS VISES DO OUTRO MUNDO
Em visita aos sditos distantes, KATE MIDDLETON, o prncipe William e o filhinho tiveram o entourage habitual acrescido de mais uma integrante: a nova bab de George, espanhola de 43 anos e a primeira estrangeira a cuidar de um herdeiro do trono britnico. Na cota de Kate, viajam ainda sua cabeleireira, duas secretrias e uma assistente encarregada de zelar pelos 32 modelos que ela vestir nos 21 dias de tour pela Austrlia e Nova Zelndia. A contrastar com tanta roupa, o desapego indumentrio do guerreiro maori chamou a ateno da duquesa  na foto, muito interessada nas tatuagens de um deles. Com o mesmo despojamento maori, KIM KARDASHIAN passou boa parte da sua estada na Tailndia, onde gravou cenas de seu reality show entre um agachamento e outro (ela faz 100 por dia). O tempo livre, a socialite americana usou para 1) fazer e postar muitas selfies; 2) aturar as piadinhas sobre quantas horas durar seu casamento com o rapper Kanye West (o primeiro durou quatro anos e o segundo, 72 dias); e 3) negar, negar e negar a presena de qualquer aditivo artificial nos seus atributos do outro mundo.

EXEMPLAR TAMBM DE CAMA
Em So Paulo para conduzir um leilo em prol do combate  aids, SHARON STONE despejou na plateia seu habitual caminho de charme. "Eu at mostraria a calcinha, se isso servisse para trazer mais dinheiro", disse ao pblico embasbacado, para logo completar a maldade: "Mas vocs sabem que eu no uso calcinha". O auditrio veio abaixo, e ela terminou a noite com 6 milhes de reais extrados dos extasiados presentes. No constava dos planos da atriz, no entanto, encerrar sua viagem a So Paulo num hospital, no qual deu entrada com gripe comum - e no H1N1, como se chegou a dizer - e de onde saiu duas noites depois, deixando para trs nova fileira de admiradores  desta vez conquistados pelo seu bom humor e pela performance de paciente exemplar.


5#2 VIDA DIGITAL  NO CORAO DA WEB
Uma falha que compromete a criptografia de dados gerou pnico. Foi exagero, porque a internet corrige os furos de segurana na mesma velocidade com que os cria.

     H dois anos uma falha em um sistema de criptografia  usado para transformar dados digitais em cdigos mais difceis de ser quebrados por hackers  compromete a segurana da internet. O bug chegou a atingir dois teros das informaes guardadas na web. Por enquanto, acredita-se que os nicos que tinham cincia eram alguns grupos de hackers e agncias de espionagem americanas. Na semana passada, contudo, um anncio em conjunto feito pelo Google e pela empresa finlandesa de segurana digital Codenomicon, ao revelar o erro, disseminou pnico (exagerado) na rede. O corao sangrando, smbolo do estrago, comeou a circular afoitamente. 
     Batizado de heartbleed, ele afeta uma implementao de cdigos de segurana chamada OpenSSL (quando se acessa uma pgina que utiliza esse sistema, aparece um cadeado na barra do navegador). Por ser gratuito, o OpenSSL  massivamente adotado. Sites como o Facebook e o Google, alm de servios de computao em nuvem, como os da Amazon, ficaram vulnerveis. A corruptela ocorre no momento em que um site troca dados com o sistema de criptografia, liberando indevidamente o acesso a informaes dos usurios, como senhas e registros de bancos on-line. O apelido dado ao inseto daninho, heartbleed (em ingls, sangramento do corao), se refere ao modo como ele age. Quando se entra num site, os dados criados dentro da pgina se comunicam com o OpenSSL para ser criptografados. A esse processo se d o nome de heartbeat (batida cardaca). Com a falha, as informaes que fluem  pela internet ficam suscetveis a vazamento. Diz o engenheiro da computao Marco de Mello, ex-diretor global de segurana da Microsoft e fundador da PSafe, empresa de antivrus: " como se duas pessoas conversassem por telefone por dois anos, acreditassem na privacidade das conversas e, agora, descobrissem que podia ter gente escutando". O que deixa o heartbleed mais nocivo  que no se descobriu uma maneira de rastrear os mal-intencionados que se aproveitam da brecha. 
     Detectada a falha, o que fazer? A principal providncia tem de ser tomada pelos donos dos sites. Antes do anncio, o Google e a Codenomicon notificaram as maiores empresas da rea. Os sites mais populares, a exemplo do Facebook, atualizaram seus sistemas para corrigir o erro (na semana passada, teste feito por um hacker provou que ao menos 1260 das 10.000 pginas mais acessadas eram vulnerveis). Em teoria,  garantia suficiente. Mesmo assim, recomenda-se a troca de senhas nos servios afetados (veja ao lado). Mas sem exagerada preocupao, porque nem tudo foi corrompido. Podem ficar sossegados, por exemplo, adeptos de produtos da Apple e da Microsoft, que contam com sistemas de segurana prprios, e no usam o OpenSSL. No endereo http://filippo.io/Heartbleed/  possvel verificar quem foi comprometido. Em entrevista ao Los Angeles Times, Jonathan Sander, vice-presidente de tecnologia da Stealthbits, empresa de cibersegurana, definiu: "O heartbleed  como uma falha de fabricao de um modelo de carro. Mas o problema se agrava por ser impossvel realizar um recall da internet". 

OS ALVOS DO BUG
Dos 10.000 sites mais acessados, ao menos 1260 foram afetados. 
Os mais conhecidos, para os quais se recomenda trocar a senha de acesso, so: 
amazona web services
fecebook
google
Dropbox
Yahoo!

JENNIFER ANN THOMAS


5#3 MEMRIA  OUSADO, FORTE E SEDUTOR
     Dos atores de sua gerao, o cearense Jos Wilker  morto no sbado 5, aos 67 anos, de infarto, no Rio de Janeiro  era o mais verstil e ousado. Na televiso, onde se tornou popular, no se limitou  imagem do gal, como o Mundinho Falco da primeira verso de Gabriela (1975). Arriscou tambm tipos debochados (um aloprado que literalmente morria de rir em O Bofe, de 1972) e cmicos (como Giovanni Improtta, o bicheiro romntico que assassinava o idioma em Senhora do Destino, de 2004). Foi no teatro, no qual iniciou a carreira, nos anos 60, que Wilker teve dois de seus desempenhos mais festejados: na pea O Arquiteto e o Imperador da Assria, de Fernando Arrabal, em 1970, e como o homem que se apaixona por um animal em A Cabra ou Quem  Sylvia?, de Edward Albee, em 2008. Mas fez histria tambm no cinema  sem roupa, na pele do cafajeste Vadinho de Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), e encarnando outros personagens antolgicos como o Lord Cigano de Bye Bye Brasil (1979) ou o Tenrio Cavalcanti de O Homem da Capa Preta (1986). Wilker no era s um grande ator de cinema: era um conhecedor que possua um acervo de cerca de 4000 filmes e escrevia sobre o assunto. Seu sorriso de sedutor, da mesma forma, estava longe de ser s cena. Wilker teve muitos namoros, trs casamentos (com as atrizes Rene de Vielmond, Monica Torres e Guilhermina Guinle) e deixa duas filhas, Mariana e Isabel. Sua ltima atuao marcante foi h dois anos, no remake de Gabriela, como o coronel Jesuno Mendona, cujo bordo ("Vou lhe usar") virou mania. Jos Wilker saiu de cena discretamente  morreu durante o sono , mas a presena forte, a voz grave e o sorriso de sedutor continuam reverberando no amplo registro de uma das carreiras mais brilhantes do showbiz nacional. 
MRIO MENDES


5#4 SADE  UM DOCE AMIGO
O tratamento dos casos de diabetes ganha um aliado com o lanamento de uma famlia de remdios  j  venda no Brasil  que estimula a liberao de glicose pelo organismo.
ADRIANA DIAS LOPES

Um surpreendente gosto adocicado, como se estivesse impregnada de mel ou acar." Essa foi a constatao do mdico e filsofo ingls Thomas Willis, da Universidade de Oxford, em 1674, ao analisar a urina de um paciente com suspeita de diabetes. Willis acabara de descrever empiricamente a glicosria, um dos sintomas da doena, caracterizado pela excreo de glicose pela urina devido ao excesso do composto no sangue. Trs sculos depois da observao de Willis, e da evidncia da liberao de glicose pelo organismo, acaba de chegar s farmcias uma nova classe de medicamentos destinada a diminuir o volume de acares que os rins reciclam e devolvem ao organismo.  uma doce arma para o combate do diabetes, doena que atinge cerca de 370 milhes de pessoas em todo o mundo, pelo menos 13 milhes no Brasil. 
     Administrados por via oral, os novos remdios so os chamados glicosricos. O primeiro deles, a dapaglifozina (vendida sob o nome comercial de Forxiga), fabricado pelo laboratrio ingls Astrazeneca e aprovado nos Estados Unidos em janeiro deste ano, acaba de chegar s farmcias brasileiras. At o fim do ano dever ser lanada a canaglifozina (Invokana), da Janssen, subsidiria da Johnson & Johnson. H ainda oito medicaes da mesma linha em fase de estudos, metade delas j na etapa final de pesquisa. "Funcionam por meio de um dos mecanismos mais simples j desenhados para o diabetes, e o efeito  extraordinrio", diz o endocrinologista Alfredo Halpern, do Hospital das Clnicas. 
     Em pessoas saudveis, a glicose  reaproveitada por completo. Entre os  diabticos, quando a doena no  controlada, uma pequena poro da substncia  expelida na urina. A quantidade da substncia eliminada no organismo doente, no entanto,  insuficiente para a normalizao das taxas de glicose (veja o quadro ao lado). Os novos medicamentos fazem com que o organismo dispense pela urina 70 gramas de glicose, em mdia, por dia  o equivalente a dois brigadeiros. Estudos feitos com a dapaglifozina, com doses dirias de 10 miligramas, mostraram que, depois de seis meses de uso, houve uma reduo de at 23% nos nveis de glicemia em jejum. A metformina, hoje um dos antidiabticos mais usados, por exemplo, promove uma queda de, no mximo, 18%. Apesar do entusiasmo em torno dos novos remdios, eles no substituem as injees dirias de insulina, uma medida necessria a cerca de 30% dos diabticos. A princpio, os glicosricos sero indicados isoladamente, associados  insulina ou em combinao com outros trs antidiabticos j disponveis no mercado  as sulfonilureias, as biguanidas e os inibidores de DPP-4. 
     A perda de glicose promovida pelos glicosricos surte tambm um dos efeitos mais almejados no tratamento do diabetes: a diminuio do peso corporal. Cada grama de glicose possui 4 calorias. Se o remdio elimina 70 gramas do composto ao dia, perdem-se, portanto, 280 calorias durante esse perodo. "Em seis meses so eliminados em torno de 3% do peso corporal", diz o endocrinologista Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clnicas (CPClin), em So Paulo. O sobrepeso  a principal causa do diabetes tipo 2, a verso mais comum, com 90% dos pacientes. Oito a cada dez portadores da doena so gordos. O excesso de gordura no organismo leva a uma condio conhecida como resistncia  insulina, o hormnio fabricado pelo pncreas responsvel por transportar a glicose para dentro das clulas. O pncreas produz o hormnio, mas as clulas no conseguem aproveit-lo de maneira adequada. Como forma de defesa, o organismo "entende" erroneamente que est faltando insulina e aumenta a sua produo. Alm disso, os quilos extras interferem no funcionamento de outro hormnio, a adiponectina, envolvido tambm na entrada de glicose nas clulas. Tal desequilbrio resulta no acmulo de acar no sangue, o que predispe ao diabetes. 
     At hoje, porm, nenhum antidiabtico impactou tanto na guerra contra a balana quanto a liraglutida (Victoza), do laboratrio dinamarqus Novo Nordisk. Lanada em 2011, ela ajuda no emagrecimento ao imitar o principal hormnio associado  sensao de saciedade, o GLP-1. Com isso, perdem-se at 7 quilos em seis meses. Oficialmente, a liraglutida  indicada apenas para diabticos. "Mas sua ao excepcional tem levado os mdicos a receit-la em tratamentos para emagrecer entre pacientes no diabticos", diz o endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento, de So Paulo.  o que se chama de prtica offlabel (fora do rtulo, em traduo livre). Em breve, a conduta dever entrar para a bula da medicao. A indicao da liraglutida para terapias de perda de peso est em fase final de anlise pela FDA, a agncia americana para o controle dos alimentos e remdios. 

A NOVA ARMA...
Os glicosricos diminuem o volume de glicose que os rins reciclam e devolvem ao organismo.
1- Nas pessoas saudveis, cerca de 180 gramas do volume dirio que passa pelos rins voltam  circulao.
2- Nos diabticos, a proporo de glicose que volta a circular varia de 85% a 97%.
3- Os glicosricos agem diretamente sobre a protena que controla esse processo, aumentando drasticamente a eliminao de glicose pelos rins e diminuindo o volume devolvido  circulao.
No fim do dia, o diabtico que tomar esse novo remdio ter conseguido eliminar o equivalente a dois brigadeiros.

...E AS QUE J SO USADAS
Sulfonilureias
Desde os anos 1950
Ao - Estimulam a liberao de insulina pelo pncreas 
Exemplos: clorpropamida (Diabinese), glibenclamida (Daonil e Lisaglucon), gliclazida (Diamicron)

Biguanidas
Desde a dcada de 60
Ao  Reduzem a produo de glicose pelo fgado
Exemplos: metformina (Glifage, Dimefor, Glucoformin e Glucophage)

Inibidores de DPP-4
Desde a dcada de 80
Ao - Inibem a enzima que destri um dos hormnios associados  sensao de saciedade e ao mecanismo de produo de insulina no pncreas
Exemplos: sitagliptina (Januvia), vildagliptina (Galvus), saxagliptina (Onglyza), linagliptina (Trayenta). H mais dois medicamentos dessa fase em estudo.

Glitazonas
Desde os anos 2000
Ao  Facilitam a entrada de acar nas clulas, sobretudo nos msculos Exemplos: rosiglitazona (Avandia), pioglitazona (Actos)

Anlogos de GLP-1
Desde os anos 2000
Ao  Imitam a ao do hormnio que regula os nveis de acar no sangue
Exemplos: exenatida (Byetta), liraglutida (Victoza), lixisenatide (Lyxumia). H mais dois medicamentos em estudo.

Fontes: os endocrinologistas Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clnicas (CPClin), de So Paulo, Alfredo Halpern, da Universidade de So Paulo, e Antonio Carlos do Nascimento, e a nutricionista Ana Carolina Moron Gagliardi Miguel, pesquisadora da Universidade de So Paulo.


5#5 MEDICINA  O ENIGMA DO CAPITO BELLINI
Pesquisadores estudam o crebro do homem que ergueu a Jules Rimet para determinar a doena que o matou. A suspeita: ele no sofria de Alzheimer, e sim de um distrbio neurolgico associado aos esportes mais violentos.
NATALIA CUMINALE

     A memria do zagueiro Hideraldo Lus Bellini  um dos fundadores da nacionalidade brasileira, com o gesto de erguer a Jules Rimet acima da cabea, na Copa de 1958  comeou a falhar em 1998, quando ele estava com 68 anos. durante a gravao de um comercial para a televiso. Bellini no conseguiu decorar um texto de mseras quatro linhas. "A partir da, passei a prestar ateno e percebi que ele esquecia tarefas simples do cotidiano", conta Giselda, mulher do jogador. "Se pedia que fizesse uma compra pequena no mercado, de cinco itens, por exemplo, ele voltava sem pelo menos dois produtos." O diagnstico mdico, por excluso, foi Alzheimer. 
     Nos dezesseis anos seguintes, a doena levou embora datas, nomes, rostos e lembranas. Completamente alienado do mundo e de si prprio, o elegante Bellini morreu aos 83 anos, em 20 de maro ltimo, de falncia respiratria. Neurologista do zagueiro desde 2008, o pesquisador Ricardo Nitrini desconfia, no entanto, de que seu paciente possa ter sido vtima de um distrbio de sintomas muito semelhantes aos do Alzheimer, a encefalopatia traumtica crnica. Mais comum entre jogadores de futebol americano e hquei, lutadores de boxe e de MMA, a doena est associada a concusses frequentes na cabea. 
     Como a diferenciao entre a encefalopatia e o Alzheimer s pode ser feita por meio da anlise anatomopatolgica, a famlia doou o crebro de Bellini ao banco de encfalos humanos, da Universidade de So Paulo, um dos maiores do mundo, do qual Nitrini  um dos diretores. Hoje, fatias e fragmentos da massa enceflica do jogador esto guardados em lminas de microscpio e freezers a 80 graus negativos, entre outros 3000 crebros. A causa da morte do capito da seleo de 1958, que fez histria tambm no Vasco e no So Paulo, deve ser definida at junho. 
     A suspeita de que Bellini tenha sido acometido pela encefalopatia traumtica crnica est baseada em seu estilo de jogo. Com 1,82 metro, o zagueiro usava e abusava das jogadas areas. "Atleta de forte impulso, ele foi um dos melhores cabeceadores que o Brasil j teve", diz Jos Macia, o Pepe, ex-Santos e seleo. Quando Bellini entrava em campo, as concusses eram frequentes. A quantidade de cabeadas dadas por ele ultrapassava em cerca de 30% as cinco que um jogador sem o perfil de Bellini costuma dar em uma nica partida. Alm disso, at a dcada de 80 as bolas eram feitas de couro e, em dias de chuva, chegavam a pesar mais de meio quilo  hoje, graas aos avanos tecnolgicos, elas esto bem menos suscetveis  absoro de gua, e portanto mais leves. Para o neurologista Nitrini, o maior perigo, no entanto, no est no impacto da bola sobre a cabea, mas nas cabeadas com os adversrios, nas bolas divididas. 
     Inicialmente batizada como demncia pugilstica, a encefalopatia traumtica crnica foi descrita pela primeira vez em 1928 num artigo da revista cientfica The Journal of American Medical Association (Jama) assinado pelo patologista americano Harrisson Martland. Seu estudo baseou-se em lutadores de boxe vtimas de tremores tpicos do Parkinson, vertigem e alteraes cognitivas, caractersticas do Alzheimer. Em 1957, foi estabelecido que os primeiros sintomas da doena tendem a aparecer, em mdia, dezesseis anos depois do fim da carreira nos ringues. H a suspeita de que o Parkinson de Muhammad Ali seja, na realidade, encefalopatia. Nove em cada dez pugilistas profissionais apresentam leses cerebrais permanentes, decorrentes dos socos. 
     H modalidades ainda mais suscetveis a danos cerebrais. Em 2002, a violncia do futebol americano comeou a ser questionada. Depois de fazer a anlise anatomopatolgica do crebro do jogador Mike Webster, do Pittsburgh Steelers, o patologista nigeriano Bennet Ornam, da Universidade da Califrnia, alertou para os perigos do esporte no desenvolvimento de problemas neurodegenerativos. Conhecido como Iron Mike e considerado por muitos como o melhor jogador da liga nacional de futebol americano, Webster, ao morrer, em 2002, com apenas 50 anos, apresentava um quadro de demncia, depresso e amnsia. Na ocasio, a NFL, liga de futebol americano, alegou que o esporte era seguro e acusou Omalu de praticar "medicina vodu". Em 2008, a neuropatologista Ann McKee, da Universidade de Boston, comeou a estudar a encefalopatia traumtica crnica. Hoje, ela possui um banco com mais de duas centenas de crebros de ex-jogadores e tornou-se referncia no assunto. "Se o crebro  submetido a concusses repetitivas, num ciclo vicioso e sem que ele possa se recuperar, h o acmulo de uma protena chamada tau", disse Ann a VEJA. " um processo extremamente txico que leva as clulas cerebrais  morte." Um jogador de futebol americano sofre entre 900 e 1500 concusses por temporada  o equivalente a at 93 batidas por jogo. 
     Define-se como concusso um golpe repentino na cabea, levando a uma interrupo temporria na atividade cerebral. Um dos mecanismos mais comuns  quando o crebro chacoalha. "O choque contra as paredes do crnio leva s leses", diz o mdico Renato Anghinah, chefe do servio de reabilitao cognitiva ps-traumatismo cranioenceflico do Hospital das Clnicas de So Paulo. "Toda vez em que h contuso, as clulas neurais podem morrer ou sofrer rupturas que as impedem de funcionar adequadamente." Com isso, ocorre a liberao da protena tau, encontrada no interior dos neurnios. Duas horas depois da pancada, ela  depositada no crebro e l permanece por cerca de trs meses. Se as concusses so frequentes, o depsito de tau  sempre renovado. Na encefalopatia traumtica crnica, a protena tende a se depositar no tlamo, na amgdala e no crtex frontal, estruturas cerebrais responsveis por manter as funes bsicas do organismo, pelas emoes mais primrias e pelas funes executivas. 
     A cincia ainda busca desvendar os mecanismos por trs das concusses repetitivas. "Investigamos as diferenas genticas entre os esportistas que desenvolvem a doena e os que permanecem saudveis", diz Ann. Ela foi a primeira a descrever um caso de encefalopatia traumtica crnica em um jogador de futebol, o americano Patrick Grunge, em fevereiro deste ano. Agora espera ansiosa pelos resultados da anatomopatologia do crebro de Bellini. 

AS REAS MAIS ATINGIDAS
Quais so as regies cerebrais mais afetadas na encefalopatia traumtica crnica
TLAMO - Estrutura localizada no centro do crebro para onde convergem e de onde so reenviadas informaes para todas as outras regies cerebrais.
CRTEX FRONTAL  Responsvel pelo planejamento, pelo controle do comportamento social e pela tomada de deciso.
AMGDALA  Integrante do sistema lmbico, est associada ao controle das emoes mais primrias.

A DOENA  Ocorre o acmulo de uma protena (tau) nesses regies. Ela se deposita e forma emaranhados de fibras que sufocam, atrofiam e matam as clulas cerebrais.

Fonte: Renato Anghinah, neurologista do Hospital das Clnicas de So Paulo.

OS NEURNIOS DE PAVLOV E EINSTEIN
O mdico russo Ivan Pavlov e o fsico alemo Albert Einstein tiveram seu crebro estudado pela cincia. Um dos precursores do behaviorismo, Pavlov morreu aos 86 anos, em 1936. Seu crebro est no Instituto de Pesquisa Cerebral de Moscou. Segundo os estudos feitos at agora, a massa enceflica do mdico era um pouco mais pesada do que a mdia  1517 contra 1200 gramas. Alm disso, o hemisfrio esquerdo era ligeiramente maior do que o direito, o que, em geral, est associado a uma maior habilidade para tarefas lingusticas e conceituais. As anlises do crebro de Einstein, no Hospital de Princeton, nos Estados Unidos, revelaram um corpo caloso mais grosso do que o da mdia da populao. Tal estrutura  responsvel pela comunicao entre os dois hemisfrios cerebrais. Alm disso, o fsico possua uma quantidade mais elevada de clulas de glia, que do suporte e nutrio aos neurnios. Einstein morreu em 1955, aos 76 anos.


5#6 IDEIAS  SERVIDO VOLUNTRIA
Pulseiras, sensores, roupas, tnis e raquetes que medem passadas, qualidade do sono, calorias queimadas, temperatura da pele, quantidade de suor! Tantos dados ajudam mesmo?
FILIPE VILICIC E RAQUEL BEER

     Um dos frutos da era de total conectividade em que vivemos  a indita possibilidade de quantificar tudo o que se faz. Um beb do sculo XXI  rodeado por imensas quantidades de dados digitalizados desde o nascimento. Nove em dez crianas possuem algum arquivo pessoal on-line, como um vdeo gravado pelos pais, com incontveis lembranas da primeira infncia, ou mesmo a evoluo de peso e tamanho anotada pelo pediatra, antes mesmo de completar 3 anos de idade. Para ordenar esse amontoado de registros, naquilo que o jargo tecnolgico chama de Big Data, criamos dispositivos especializados em colher, organizar e armazenar informaes. Com gadgets diversos, como pulseiras e culos computadorizados, sabemos exatamente quantas calorias gastamos em um dia, a qualidade do ar ao nosso redor, ou mesmo a fora que aplicamos numa raquete de tnis. Tudo sem grande (ou nenhum) esforo. Os dispositivos trabalham por ns: transformam as atividades cotidianas em nmeros que melhoram a produtividade pessoal e profissional. Mas essa obsesso  benigna? Nem sempre. 
     Rapidamente percebemos que para cada ponto benfico h a incmoda sensao de vcio, e ela evidentemente  ruim. Em seu livro Smarter than You Think (Mais Esperto do que Voc Imagina), o escritor canadense Clive Thompson demonstrou que as mesmas tecnologias usadas como apoio para aprimorar nossas capacidades intelectuais e fsicas trazem embutido o seu contrrio. "Um jogador iniciante de xadrez, um esportista amador, qualquer um que se adque a esses gadgets pode turbinar suas habilidades e alcanar o desempenho de um profissional mais rapidamente", avalia Thompson, em entrevista a VEJA. Mas h danos na outra ponta, como revela a experincia de Gordon Bell, de 79 anos, icnico engenheiro da Microsoft, cujo cotidiano foi esmiuado por Thompson. Bell registra digitalmente o que faz desde 1997, por meio de produtos que ele mesmo criou, como um pesado colar que filma, fotografa e grava conversas. "Quando conversei com Bell, notei que para ele era fcil lembrar com quem tinha falado, e qual era o exato contedo do papo, em qualquer dia de sua vida ps-1997", diz Thompson. "Mas, quando indagado sobre o que comeu no almoo, ele no recorda." Ao substiturem e suplantarem habilidades humanas, os gadgets nos tornam menos capazes de realizar tarefas comezinhas quando estamos desplugados. 
     O exemplo mais radical  o do escritor americano A.J. Jacobs. Em 2009, para se tornar a pessoa mais saudvel do mundo, ele resolveu utilizar toda sorte de dispositivos para controlar tudo o que fazia. Comeou com um pedmetro, passou para a pulseira Fitbit, que registra a queima de calorias, e, a partir da, no teve limites. Chegou a utilizar uma faixa presa  cabea que coleta ondas cerebrais para identificar a durao e a qualidade do sono. Com os aparelhos, Jacobs descobriu, por exemplo, que passar aspirador de p queima 246 calorias, enquanto fazer sexo gasta 70. Contabilizou ainda o nvel de decibis do rudo de todos os ambientes que frequenta. Sua experincia durou um ano e foi contada no livro Drop Dead Healthy (Morto de Sade). A compulso pelos dados o tornou fisicamente mais saudvel: ele perdeu 7 quilos e controlou seu colesterol. "Mas fiquei viciado no processo de me quantificar", disse ele a VEJA. "Esses gadgets demandam ateno e dedicao de tempo. A loucura pelos nmeros pode sobrecarregar o crebro e levar, em casos extremos,  depresso." E aquilo que nasceu como fascinante benefcio da tecnologia vira escravido voluntria. 
     O impulso de transformar tudo em dados  um efeito natural da vida moderna, e no h motivos para fre-lo. Convm apenas estabelecer limites para evitar a dependncia. Um dos aparelhos mais populares nessa mania da vigilncia total  a chamada pulseira inteligente. Nas lojas desde 2011, ela usualmente mede quantos passos so dados ao longo de um dia e as calorias gastas com exerccios. H modelos mais avanados, como os da marca Jawbone, que registram o nmero de passos, a intensidade da atividade fsica e, por meio de sensores capazes de detectar o mnimo movimento do corpo, a qualidade do sono. No ano passado, vendeu-se 1,8 milho de pulseiras inteligentes. Elas so as mais badaladas representantes de uma subcategoria de produtos, os vestveis, ou wearables, na expresso em ingls. So dispositivos usados no corpo, como colares, relgios e camisetas. Em 2013, 15 milhes de unidades desses aparelhos foram comercializadas. Ainda  um nmero modesto, mas  esperado um aumento de 3200% em cinco anos, com venda anual de meio bilho de wearables at 2018. Esse leque de traquitanas auxilia a construir uma rotina saudvel,  inquestionvel. Mas a avalanche de lanamentos  to invasiva e volumosa que se torna inevitvel pensar que os avanos tecnolgicos andam mais rpido que nossas necessidades, e a obsolescncia programada soa como marca indelvel de nosso tempo. 
     E no entanto a vida segue atavicamente colada a tudo que  smart. So smartphones, smartwatches, smartglasses, smartbands e verses smart de tudo quanto  tipo de coisa, at mesmo chuteiras de futebol. A indstria sente o vento a favor e aproveita a oportunidade. O promissor mercado de smarts e wearables, que teve incio com startups americanas, chama a ateno de tradicionais gigantes da tecnologia. No ms passado, a Intel comprou uma dessas startups pioneiras, a Basis Science, que produz um relgio que mede da frequncia cardaca  temperatura da pele. Conhecida pela fabricao de chips   do fundador da Intel Gordon Moore, a infalvel Lei de Moore, pela qual a capacidade de processamento de chips deve dobrar, sem aumento de custo, a cada dezoito meses , a empresa americana investe em wearables desde o ano passado, quando designou Mike Bell, que j passou pela Apple, para comandar o departamento de "novos dispositivos". Outras companhias de renome, a exemplo da Apple (estuda o lanamento de um relgio) e do Google (fabrica culos e relgios inteligentes), esto nesse jogo. Chegar o dia, e no est longe, em que aparecero pulseirinhas para medir o vcio pelas pulseirinhas. 

OS APARELHOS MAIS POPULARES PARA REGISTRAR ATIVIDADES FSICAS

PULSEIRA JAWBONE UP
Preo: 99 dlares (pelo site amazon.com)
Como usar: sincroniza-se a pulseira com o aplicativo da Jawbone para smartphone e tablet
Dados que coleta: durao e intensidade de atividades fsicas, profundidade do sono e nmero de passos
til para: esportistas, profissionais ou amadores, principalmente corredores
Problema: funciona bem para acompanhar treinos de corrida ou exerccios que envolvem as pernas, mas  pouco eficaz para outros esportes

CHUTEIRAS ADIDAS NITROCHARGE MICOACH
Preo: 800 reais
Como usar: o chip transmite os dados, por Bluetooth, para qualquer computador, smartphone ou tablet
Dados que coletam: velocidade e quantidade de arrancadas numa partida. Diferenciam passos normais de passadas largas e armazenam at oito horas de atividade fsica
til para: jogadores de futebol 
Problema: as informaes tm de ser analisadas pelos olhos experimentados de um treinador de futebol ou de um fisiologista

GRAMPO FITBIT ZIP
Preo: 60 dlares (pelo site fitbit.com)
Como usar: o grampo eletrnico pode ser preso numa blusa ou cala. H quem o use como colar. Os dados so vistos na tela do dispositivo, no computador ou por um app para smartphone
Dados que coleta: nmero de passos, distncia percorrida e calorias gastas. H uma verso mais avanada, de 100 dlares, que mede a intensidade do sono
til para: qualquer um que queira ter uma rotina controlada
Problema: as informaes, principalmente as que medem a intensidade do sono, tm de ser analisadas com cautela, pois as necessidades fsicas, a exemplo da quantidade de horas que se dorme numa noite, variam de uma pessoa para outra

RELGIO BASIS
Preo: 199 dlares (pelo site amazon.com)
Como usar: a tela  touchscreen e mostra dados como a queima de calorias; outras informaes, a exemplo da avaliao da qualidade do sono, so vistas por um app
Dados que coleta: frequncia cardaca, calorias gastas, ritmo de transpirao, temperatura da pele, nmero de passos dados e intensidade do sono
til para: quem quer medir o funcionamento do organismo mesmo em repouso
Problema: os dados so analisados pelo app de acordo com o rendimento fsico de uma pessoa com sade mediana. No devem ser considerados da mesma forma por quem est em um de dois extremos:  atleta profissional ou sofre de alguma doena, como as cardacas

CAMISETA SENSRIA
Preo: 149 dlares
(previso de lanamento: 28 de abril)
Como usar: os dados so checados em oito aplicativos de smartphone, como o Strava e o Runtastic
Dado que coleta: frequncia cardaca 
til para: esportistas que desejam acompanhar o ritmo dos batimentos cardacos durante os exerccios
Problema: a frequncia cardaca ideal  distinta de indivduo para indivduo.  preciso acompanhamento mdico para determinar, por exemplo, o ritmo de batimentos que deve ser mantido numa corrida

Os tipos de dispositivos preferidos pelos que pretendem comprar esses aparelhos (* Mais de uma resposta possvel)
44% chips, como grampos, em roupas
28% relgios e pulseiras
18% tnis e meias
12% joias
12% fones de ouvido
12% culos
10% braceletes
6% utilizados no peito
4% lentes de contato
3% tatuagens eletrnicas na pele

A RAQUETE INTELIGENTE
Como a Babolat Play coleta dados sobre o desempenho do tenista
1- A ponta do cabo tem entrada USB e um boto de ativao do Bluetooth. As informaes so acessadas por um app de smartphone e tablet ou pelo perfil do usurio no site da Babolat.
2- Um acelermetro e um giroscpio no cabo captam a qualidade do movimento do tenista, a posio da bola na raquete, a fora da rebatida e a velocidade do saque.
3- O jogador v quantas rebatidas de cada tipo ele deu (como saques e cortadas), qual rea da rede da raquete absorveu mais impacto e a eficcia de tcnicas e da fora usada nos movimentos.  possvel conferir partidas anteriores, acompanhar o progresso de treinos e comparar resultados com os de outros tenistas.


5#7 EDUCAO  TEMPO PARA INVESTIGAR
Um conjunto de escolas de So Paulo mostra como a jornada integral pode ser o caminho para fazer da sala de aula um lugar mais vibrante, onde se aprende com gosto.
CECLIA RITTO

     Na mtrica oficial, um tpico estudante brasileiro passa quatro horas e meia por dia na escola  trs a menos do que um americano ou um europeu. Essa desvantagem logo na largada se agrava quando se vai examinar como o tempo transcorre na sala de aula. A a concluso  de deixar de cabelos em riste qualquer um que aspire a uma boa educao: pois um tero dessas j minguadas horas costuma se esvair entre a disperso e a indisciplina, escasseando ainda mais os momentos de aprendizado. Algumas redes de ensino vm ampliando a jornada de estudos aqui e ali, mas ainda em proporo modesta ante o colossal abismo que separa o Brasil dos campees  apenas 4% das escolas brasileiras do ensino mdio funcionam hoje em regime integral. O nmero tende a se ampliar,  verdade; se cumprida a meta fincada pelo Plano Nacional de Educao, daqui a uma dcada a metade dos estudantes ter um turno mais longo.  um investimento alto mas indispensvel. "Nenhum pas que aparece no topo dos rankings conseguiu chegar l com uma jornada to enxuta", enfatiza a especialista Maria Helena Guimares. Para uma escalada de patamar, porm, ser necessrio fazer uso verdadeiramente eficiente do tempo. 
     Um conjunto de 182 escolas estaduais de So Paulo tem sido palco de uma experincia que merece ateno justamente por tirar proveito do turno dilatado para sacudir a rotina escolar. Ali, crianas e adolescentes permanecem das 7 e meia da manh s 5 da tarde em uma jornada que vai mais fundo na grade tradicional (sim, h reforo em portugus e matemtica) e traz  cena um vis mais prtico do que o usual. Os alunos podem escolher entre um leque variadssimo de cursos que combinam duas, trs matrias em experimentos que ajudam a ir sedimentando os conceitos do currculo. Um deles  o de arquitetura, em que as lies de desenho geomtrico e artes se juntam para produzir uma planta baixa da escola; outro  o muito popular "CSI", que pe a matemtica, a fsica e a qumica a servio da elucidao de crimes hipotticos. "O tempo que ganhamos se traduziu em um ensino menos abstrato e mais conectado  vida dos estudantes", avalia Maria de Ftima Rizzo, diretora da escola paulistana Alexandre Von Humboldt, onde estudantes como Isabela Almeida, de 15 anos, renovaram o interesse pelos estudos: "No comeo, o turno integral foi um choque, mas depois todo mundo gostou e se envolveu". 
     Um dos aspectos que distinguem essas escolas  a tentativa que elas fazem de alcanar os alunos de forma mais personalizada, esta uma busca global entre os que esto atrs de excelncia. No jargo local, significa que cada aluno precisa se debruar sobre o futuro e traar um "projeto de vida", em que fala de suas aspiraes e das reas pelas quais tem mais pendor, ainda que v mudando de rumo depois.  tudo acompanhado de perto por um "tutor"  figura que j se v em maior escala fora do Brasil. Trata-se de algum que ajuda o aluno a escolher disciplinas com as quais tenha mais afinidade e o orienta de perto nos estudos. Em So Paulo, antes de pisarem numa dessas escolas de tempo integral, os professores so treinados durante seis meses para lidar com suas particularidades e recebem providencial reforo em cincias, matria em que costumam tropear. Todos trabalham em regime de dedicao exclusiva  algo desejvel a 100% dos colgios. 
     O modelo  semelhante ao implantado uma dcada atrs em Pernambuco, onde um grupo de empresrios entrou no circuito da rede estadual no s provendo dinheiro, mas uma cultura mais moderna de gesto dos assuntos acadmicos. Hoje, 50% das escolas dali funcionam nesses moldes, e dispararam nas notas. O mesmo comea a se perceber em So Paulo: o conjunto de tempo integral progrediu 22% nas notas em 2013, enquanto o restante da rede ficou no mesmo patamar. At 2018, o plano  ter 1000 dessas escolas em um universo de 5300. Est em sintonia com o projeto nacional. No ano passado, o governo federal lanou um programa para canalizar recursos a redes pblicas interessadas em investir na modalidade integral. As dvidas pairam, porm, sobre o que vir depois; o edital do governo  vago, sugerindo que a grade se amplie com reas como "educao ambiental, esporte e lazer, direitos humanos em educao, cultura e promoo da sade". Cabe a cada rede apresentar o seu projeto. Quem acompanha o desenrolar diz que a qualidade varia muito e  ainda uma minoria das escolas que consegue fazer bom uso das horas para promover o to necessrio avano. 


